Pois, como eu suspeitava, as coisas não correram bem. O meu pai começou a insistir para eu me ir calçar, e eu disse que não queria ir. Bom, não disse, mas demonstrei. Após alguma insistência por parte dele, finalmente levantei-me e fiz o que nunca tinha feito. Falei com ele, enfrentando-o. Já tinha falado com ele, obviamente, para lhe contar alguma coisa, para ele me contar alguma coisa... mas era sempre troca de informações. Sempre que eu o queria contrariar, mantinha-me calado. Claro, reparei que isso só servia para o fazer ficar mais irritado. Então, como disse, levantei-me da cadeira e, como sempre faço quando estou nervoso, falei (demasiado) calmamente, exactamente com estas palavras:
- Posso apenas dizer um coisa?
- Antes de dizer o que quer que seja. - Interrompeu o meu pai. - Lembra-te que não te opuseste nem disseste nada quando a tua mãe te mandou ir tomar banho, ninguém te obrigou a ires vestir-te.
- sim, mas não era hoje que eu ia cortar o cabelo? - Perguntei.
- Pois, agora é por causa do cabelo.
Aqui tive vontade de lhe dizer "acredita no que quiseres" mas abstive-me e continuei.
- Da outra vez que isto aconteceu, tu ficaste chateado, porque eu fiquei calado, sem dizer nada. Ontem ou anteontem, eu falei contigo, disse o que achava. Contou para alguma coisa? Não. Não contou para nada.
E estava prestes a sentar-me quando ele continua.
- Então e amanhã, querias ir sair, eu não me importo de te deixar sair, mas vinhas connosco. eu não estou a pedir para vires, eu estou a pedir para vires connosco!
- Mas eu já disse que não me sinto bem no meio de tanta gente desconhecida.
- Mas eu não me sinto bem em ir sem os meus filhos!
Segunda vez que ele usa a técnica a culpa... Pouco antes tinha começado a dizer para eu ir, que as pessoas estavam a contar connosco, que investiram no almoço a contar connosco... O mais é incrível é que eu nunca tinha dito que ia, de fato, até tinha dito que não estava com vontade de ir.
- Então e porque é que não te sentes bem em ir sem os teus filhos?! - Perguntei... Estava a começar a dar uma deixa para lhe contar a segunda razão...
- Porque somos uma família! Ou só és meu filho para eu te dar de comer, pôr roupa no corpo e um teto por cima da tua cabeça?
- Não! - Aqui a minha voz sai-me esganiçada de indignação.
- Então?!
- Eu já disse, trata-se de eu não me sentir bem!
- Pois, e eu também já disse que não me sinto bem em ir sem os meus filhos.
Eu ainda abri a boca, para lhe contar que também não queria ir porque não queria confrontar vários casais felizes quando eu não podia ter o mesmo devido a quem sou, mas não devia ser mesmo a altura, porque ele deu meia volta, sem dizer mais nada, sem me deixar dizer mais nada, e saiu.
eu ter-lhe-ia dito que estava a fazer uma má comparação com o eu ir amanhã sair com a Bia e o JT, porque é completamente diferente sair com duas pessoas que conheço à onze anos do que sair com mais de cinquenta que não conheço de lado nenhum. E seria também muito diferente de ir a um jantar de família, ir tipo ao restaurante com os meus tios ou os meus avós, ou ir jantar a casa deles... Isso é jantar de família e aí poderia sentir-se mal sem ir com os filhos que são família... Agora, ele vai a um jantar de amigos deles! Eu não me importo de não levar os meus pais a sair com os meus amigos, caramba até agradeço que eles não venham. Ok, não é uma boa comparação, admito... Mas onde quero chegar é que, lá por sermos pai e filho, não significa que tenhamos de ir às mesmas saídas de amigos, ainda por cima com os amigos do outro que não conhecemos. Neste momento, nem sei bem como me sinto. Tenho vontade de berrar de irritação por ele ficar chateado comigo até mesmo quando sou honesto e directo, e vontade de chorar por perceber que se for honesto e directo com ele, me posso vir a magoar... E essa é a pior parte, que me faz relembrar ainda mais vivamente porque é que eu tenho tanto receio de contar aos meus pais que sou gay. Isso vai contra o que eles acham normal. Sei disso, porque oiço os comentários desdenhosos que fazem sobre os homossexuais. é terrível, estar a jantar, em frente ao teu pai, e, de repente, ao falar sobre a minha vida, ele acaba a mencionar o Miguel (que tem os tiques, se é que me entendem... Diga-mos que a sua postura faz as pessoas desconfiar...), e a dizer: "Vê lá, não vires para o lado errado haha !". Essas coisas deitam-me abaixo. e eu ainda pensava, defendendo-o: vá lá, ele só diz isso porque não sabe que tem um filho gay... Mas depois à pequenas coisas que acontecem ou que ele diz que me fazem querer ainda mais esconder o que sou...
Acho que bati no fundo.