quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Pai...

Acordei às cinco e meia da manhã, ontem.Não conseguia dormir. Quando, ao jantar, comentei isso, o meu pai perguntou logo: "O que é que te preocupa para não dormires como deve de ser?". Eu fiquei a olhar para ele, sem responder. Senti uma vontade imensa de lhe contar tudo. Mas não sabia como a minha mãe e o meu irmão reagiriam, se me ouvissem falar. Depois, bloqueei. Conto, não conto? Será que lhe digo que estou preocupado com os estudos, com os amigos, com a minha vida e com a minha orientação sexual? Quanto mais pensava nisso, mais achava que não devia contar. Mas ele insistiu: "Ainda não respondeste à pergunta...". Inspirei fundo, enchi-me de coragem, mas o meu olhar cruzou-se com o olhar curioso da minha mãe e saiu-me um insonso "amanhã tenho teste de filosofia, deve ser isso...". Pensei que estava o assunto encerrado e que não teria que falar daquilo e que talvez fosse melhor assim. Mas o meu pai é um homem perspicaz... demasiado perspicaz e não se ficou com aquela resposta, insistindo: "De certeza que é só isso que te preocupa...?". Eu sabia que ele desconfiava, não, que ele tinha a certeza, que havia mais qualquer coisa que me preocupava. Voltei a dar a desculpa do teste: "Ah, tenho o teste de Filosofia amanhã e o de Biologia na sexta...". Ele percebeu que eu não queria falar mais e encerrou o assunto. Mas o olhar com que ele me fitou dizia, claramente que ele sabia que havia mais qualquer coisa que eu não estava a contar. Eu sentia-me aterrorizado por dentro, sem saber o que fazer e o que dizer. Fiquei calado o resto do jantar e vim para o meu quarto. Quanto mais pensava, mais tinha vontade de desabafar com ele, já que a minha melhor amiga tem estado ausente... Mas eu não me importava de perder todos os meus amigos, esses, se me abandonam por eu ser quem sou, não são amigos de verdade. Mas há alguém que eu não suportaria perder. Alguém que é mesmo o meu único e verdadeiro pai. Se ele não tolerar nem me aceitar como sou, eu não tenho mais nada. Ele sempre foi aquela pessoa para quem olhei para cima: orgulhava-me de o ver arranjar as coisas que eu partia ou estragava, orgulhava-me de o ver improvisar artimanhas práticas para tornar uma qualquer tarefa mais fácil, orgulhava-me de o ver encarar de frente os problemas e resolvê-los, orgulhava-me de o ver enfrentar as pessoas que estavam contra ele ou que ele achava terem feito alguma injustiça, orgulhava-me de o ver trabalhar até altas horas da noite para ganhar dinheiro para ter o que me dar de comer e vestir. Orgulhava-me do meu pai, e ainda me orgulho dele, pois ele continua a fazer todas essas coisas. E tenho medo de o perder se for completamente honesto com ele. Não sei se vale a pena o risco...

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