terça-feira, 8 de março de 2011

Quem me dera...

Ainda há uns tempos, a minha melhor amiga disse que não queria ter filhos, pois as crianças são chatas. Lembrei-me disto a propósito de ter estado ontem na presença de um bebé. Eu, sinceramente, não concordo com ela... Sempre tive jeito para crianças, quer sejam bebés, quer sejam um pouco mais velhas. Fascina-me a curiosidade delas, as brincadeiras que têm, o mundo de imaginação em que habitam. Enche-me de prazer brincar com elas, entrar naquelas brincadeiras que trazem ao de cima o mais puro divertimento que é possível imaginar. Entretém-me a forma como elas falam ingenuamente sobre alguns problemas da vida dando sugestões de soluções que seriam óbvias. Sempre que vejo um bebé tenho o instinto de segurar nele, com cuidado, protegê-lo, acarinhá-lo. E desde que me lembro, que sonhei em constituir família, ter filhos, netos... Mas as coisas mudaram drasticamente quando comecei a fazer a mim próprio as perguntas que mais me incomodavam. É normal que os rapazes e as raparigas se comparem uns aos outros. "Oh, aquele/a tem um corpo melhor que o meu", ou "Como será que aquele/a consegue ser assim tão atraente", ou "o que é que eu tenho que ele/a não tem" ou "Aquele/a ali podia usar uma roupa que o/ favorecesse um pouco mais..." são comentários que muitas vezes nos fazemos, principalmente a pessoas do mesmo sexo. É natural e não significa que sejamos homossexuais. Até que eu comecei a perguntar-me "Será que quando olhas para eles, te estás a comparar ou os estás a admirar?". E depois, fui ou pouco mais longe: "será que tu serias capaz de ter uma relação com outro rapaz?". Até agora a resposta foi sim. E depois, veio a pergunta: "Será que tu és homossexual?". É algo que se sabe. Está cá sempre. Uns escolhem negar, outros escolhem confrontar-se com isso. Eu escolhi confrontar-me e, subitamente, vi todos os planos que eu tinha para o futuro a desvanecerem-se. Eu não poderia ter uma família, não poderia ter filhos! Mas o tempo foi passando, as pessoas continuavam a dizer que eu tinha jeito para as crianças, que os mais novos procuravam (e ainda procuram) sempre pela minha companhia. Acho que a única coisa que tenho que outros podem não ter é a paciência. Sempre fui muito paciente com as pessoas, não só mais novas, como da mesma idade que eu, ou mais velhas. E comecei a pensar. E pensei. Caramba! Estou a deixar-me levar pela sociedade. As pessoas preconceituosas é que dizem que os homossexuais não devem constituir famílias. E houve um dia que ouvi alguém dizer que "os homossexuais não podem ter filhos! Mesmo que sejam adoptados, os filhos deles aprenderiam a ser homossexuais e não teria uma vida hetero!" Acho isto... sem outras palavras: estúpido e ignorante. Então se a homossexualidade passasse de geração em geração por aprendizagem, como é que teria aparecido numa espécie que necessita da heterossexualidade para se manter? Para haver filhos, tem de haver um casal com membros do sexo oposto. Se a homossexualidade se transmitisse dessa forma, não existiria. E continuei a pensar: se achas que o teu sonho de constituir família está destruído por causa da tua orientação, estás a deixar-te levar na ignorância! Tenho tanto direito a formar família com um outro homem, como um homem teria de formar família com outra mulher. Pelos menos, moralmente. Legalmente a realidade é outra... Mas eu amaria tanto o meu filho ou a minha filha como um pai ou uma mãe faria se tivessem um filho, disso tenho a certeza. Continuo a ser um ser humano. Mas quem sabe, tal como a minha vida mudou, talvez mude a mente desta sociedade... Nisso, espero que se reflictam os versos de Camões:
"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades."

6 comentário(s):

Anónimo disse...

Adorei o texto. Também gosto de crianças.

Com o que li tenho a certeza que podes ser um óptimo pai. E eu tenho confiança que as coisas vão mudar e que um dia qualquer pessoa, independentemente do estado civil e orientação sexual, poderá ser pai ou mãe.

Unknown disse...

Obrigado pelas palavras amigas :P

Eu também espero que as coisas mudem para melhor em tempos vindouros...

Mark disse...

Claro que qualquer homossexual daria um bom pai/mãe. Tudo o que o desminta não passa de puro preconceito.
No meu caso, era capaz de adotar, todavia, quero ter filhos biológicos. Não que exista diferenças (da minha parte) no amor que se dá a uma criança biológica ou a uma adotada, mas quero muito ver uma pequena reflexão do meu "Eu". ^^

Unknown disse...

Compreendo. Sangue do nosso sangue é sempre algo especial, apesar de adoptar uma criança também o ser, são coisas diferentes.

e concordo contigo, qualquer homossexual que gostasse de ser progenitor, daria um bom pai ou mãe ;p

Unknown disse...

A nossa esperança é que se "mudem as vontades".

Unknown disse...

Exactamente, nem mais, Eric ;p

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